Todo dia, antes de o sol firmar, o Geraldo já está de pé. Aos 77 anos, ele empurra a própria cadeira até a esquina de sempre, com uma caixa de isopor no colo e um pano por cima pra proteger o chocolate do calor.

Aquela esquina é o ponto dele há tanto tempo que virou parte da paisagem. Quem passa toda manhã já conhece o senhor de boné, o aceno de longe e o jeito calmo de oferecer sem insistir.

Em casa são três: ele, a filha e a neta, a Ana Clara. É uma casa simples, de poucos cômodos, mas dentro dela cabe uma história inteira de gente que aprendeu a caminhar junto.

A filha nasceu com uma má formação na cabeça, dessas que trazem crises e não dão trégua. Nunca pôde trabalhar, e cedo foi o Geraldo quem tomou pra si a rotina de cuidar dela — os horários, os remédios, o olho atento pra perceber quando algo saía do lugar.

A Ana Clara tem 22 anos. Cresceu vendo o avô sair cedo e voltar no fim da tarde, e por muito tempo foi a alegria mais leve daquela casa. Faz um ano e meio, descobriram nela uma condição rara, a mesma que a família já conhecia de perto.

Hoje ela passa três tardes por semana ligada a uma máquina, quatro horas em cada sessão. Volta cansada, sem força nem pra sair da cama — e é o avô quem está sempre por perto quando ela chega.

O Geraldo tem um jeito antigo de medir o dia. Num dia bom, vende cento e vinte reais de chocolate; cem voltam pra caixa do dia seguinte, porque é assim que a esquina se mantém de pé. O resto ele divide de cabeça, com a paciência de quem já fez essa conta mais vezes do que consegue lembrar.

Toda manhã a filha pede pra ele descansar, ficar em casa só um dia. Ele responde sempre a mesma coisa, meio de brincadeira: que só vai hoje, que amanhã ele para. E toda manhã seguinte lá está ele de novo, empurrando a cadeira pro mesmo canto.

O Geraldo já perdeu a esposa anos atrás. Aprendeu, do jeito difícil, que a vida cobra cedo e nem sempre avisa. Talvez seja por isso que faça tanta questão de estar inteiro pelos seus, enquanto tiver perna e teimosia.

No fim da tarde, quando recolhe a caixa e faz o caminho de volta, ele não parece um homem cansado de 77 anos. Parece alguém que sabe exatamente por que acordou cedo — e que faria tudo de novo no dia seguinte.